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24/01/2004 21:33

Sem título

Percorrera quase todos os andares do prédio à procura de uma sala vazia, onde pudesse dar continuidade às nove páginas que faltavam para ter a leitura do romance, finalmente, encerrada. Não gostaria de ser importunada. Trazia um suco de abacaxi consigo. Não poderia terminar a leitura antes do suco, por mais que esta fosse feita silenciosamente, apenas para si, sua garganta reclamava algo refrescante. Entregou-se à bebida inicialmente, depois, intercalava goles de suco com sorvos de palavras. Ambos se confundiam e fluíam com a mesma facilidade, o que a deixava extasiada. Como era de se esperar, o suco terminara primeiro. Deixou o copo vazio sobre a mesa, queria ter um cúmplice naquele momento, algo silencioso, que compartilhasse todas as linhas que eram sorvidas – depois de já ter compartilhado o líquido –, que pudesse acompanhá-la de perto, sem voz, sem som, sem palavras, apenas com a presença úmida. Segundos depois, no entanto, a paz fora quebrada. Uma parte do líquido que restava no fundo do copo, após um leve encontro entre uma das mãos e o canudo, molhou parte da mesa. Assim, retirou um papel da bolsa, consertou o estrago, foi até à lixeira mais próxima e lá deixou seu cúmplice, não sem sentir algum pesar, pois contava com sua presença até o final. Mas este não fora o único motivo pela quebra da paz – chegara alguém, um alguém que não conseguia sorver palavras, que apenas as expelia sem qualquer comedimento.

enviada por Someone






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