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15/01/2004 01:09
Petrarca (1304-1374)
Não tenho paz nem posso fazer guerra;
Temo e espero e do ardor ao gelo passo
E vôo para o céu e desço à terra;
E nada aperto e todo o mundo abraço.
Prisão que nem se fecha ou se descerra,
Nem me retém nem solta o duro laço,
Entre livre e submissa esta alma erra,
Nem é morto nem vivo o corpo lasso.
Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
E sonho perecer e ajuda imploro;
A mim odeio e a outrem amo após.
Sustento-me de dor e rindo choro;
A morte como a vida enfim deploro
E neste estado sou, Dama, por Vós.
Camões (1524-1580)
Tanto de meu estado me acho incerto
que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio;
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
numhora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar umhora.
Se me pergunta alguém, porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
enviada por Someone
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